Habitar também é mudar
O que uma palestra me inspirou a compartilhar entre casa, vida e transformações
Alguns dias atrás, participei de uma palestra na Brasília Design Week (BDW 2026), a convite da minha amiga Arielle Martins. Quando vi o nome da Gigi Barreto na programação [link do perfil no final do texto], fiquei empolgada.
Acompanho o trabalho da Gigi desde a época em que eu fazia pesquisas sobre arquitetura, corpo e movimento, e ela foi uma das referências do meu trabalho de conclusão de curso há 10 anos.
Naquela época, sua atuação estava ligada à cenografia. Hoje, seu trabalho percorre outros caminhos, conectando arquitetura, design, curadoria e processos criativos. Achei bonito perceber que, mais uma vez, a vida muda e nós mudamos com ela.
Durante a palestra, Gigi compartilhou fotos, vídeos e projetos desenvolvidos em seu estúdio. Enquanto escutava suas reflexões sobre ancestralidade, território, pertencimento, sustentabilidade e design afetivo, fui reconhecendo perguntas que também vêm me acompanhando.
Tudo aquilo me lembrou conversas, leituras e experiências que venho atravessando ao longo da última década, investigando diferentes formas de compreender como habitamos os espaços. Não porque estivéssemos falando das mesmas referências, mas porque diferentes caminhos podem nos levar a perguntas muito parecidas.
Certos conhecimentos aparecem em lugares diferentes porque falam sobre necessidades humanas universais.
Observar a natureza, compreender nossos ciclos e os ciclos na natureza, honrar a ancestralidade e reconhecer de onde viemos e claro, criar espaços que apoiem quem somos. Essas ideias atravessam culturas, territórios e épocas tão distintas e campos de conhecimento diferentes também.
Como pesquisadora interessada em comportamento e relação pessoa-ambiente seja através do Feng Shui, da Psicologia Ambiental, da Neuroarquitetura ou de outras áreas complementares, vemos esse mesmo fenômeno se repetir em diferentes campos de estudo.
Mas existe uma reflexão que ficou ecoando em mim depois daquela palestra.
Passamos muito tempo tentando nos reconectar com a natureza como se ela estivesse em algum lugar distante como se estivesse do lado de fora. Mas nosso corpo já é natureza: nossa pele, nosso cabelo, nossa respiração, nossos ciclos, nossa intuição.
Existe uma expressão em inglês e que gosto muito: gut feeling. Literalmente, algo como “sentir pelas entranhas”. Como se o corpo soubesse antes da mente e acho que sabe mesmo.
A casa não deveria nos afastar disso, mas sim nos lembrar. Lembrar quando precisamos desacelerar, do descanso, do silêncio e do barulho dos encontros, da luz do dia ao abrir a janela, dos ciclos das estações… Tanta coisa que nosso lar pode e deve fazer por nós.
E como corpo e casa estão em constante diálogo, é natural e esperado que a casa também mude porque rotina muda, a energia muda, nossos relacionamentos mudam e se transformam durante os anos. Às vezes a família cresce, às vezes diminui e vamos criando novas formas de habitar a casa e a vida.

Às vezes mudamos de bairro, de cidade ou até de país. O quarto que fazia sentido há dez anos talvez não faça hoje. O objeto que antes carregava significado talvez já não carregue mais. As necessidades mudam. E a casa também deveria mudar.
Então acredito vale a pena olhar ao redor de vez em quando e perguntar:
Esta casa ainda fala sobre mim? Ela acompanha a pessoa que me tornei ou continua contando a história de alguém que já não existe?
A mesma pergunta também pode ser feita para outros lugares da vida: para os nossos relacionamentos, para os nossos hábitos e, claro, para a nossa profissão, porque esse foi um dos pontos que mais me tocou durante a palestra.
A trajetória profissional da própria Gigi Barreto me fez pensar nisso. Há dez anos, eu a acompanhava no universo da cenografia. Hoje, seu trabalho percorre outros caminhos. A vida mudou e ela mudou com ela e de quebra, acompanho essa mudança junto.
A Arielle também seguiu um percurso diferente. Nós duas nos formamos em Arquitetura, mas hoje ela se dedica à ilustração e à arte, traduzindo brasilidade através dos seus desenhos.
E eu? Já fui arquiteta, aspirante a cenógrafa, designer, mentora, terapeuta, consultora, professora, pesquisadora e tantas outras coisas mais. Alguns desses caminhos continuam fazendo parte da minha vida até hoje. Assumi diferentes papéis ao longo da trajetória, mas existe um fio que atravessa todos eles: meu interesse pela relação pessoa-ambiente.
Provavelmente, se você olhar para a sua história, também encontrará um fio que liga todas as suas escolhas pessoais e profissionais ao momento em que vive hoje.
E por isso, deixo mais algumas perguntas:
Quantos de nós também estamos vivendo transições que pedem novas formas de expressar nossos dons e talentos? Ainda nos reconhecemos naquilo que fazemos ou estamos apenas repetindo versões antigas de nós mesmos?
Nem sempre percebemos quando mudamos. Mas, muitas vezes, a sensação de desconforto e estagnação com a própria vida é um dos primeiros sinais de que uma transformação já começou por dentro.
Ao longo dos anos trabalhando com ambientes, vi inúmeras vezes como uma mudança de casa pode transformar uma vida. E como mudanças internas acabam, inevitavelmente, encontrando uma forma de aparecer nos espaços que habitamos.
Cada vez mais acredito que casa e vida nunca estiveram separadas. Habitar também é uma forma de transformação, porque os caminhos mudam, mas az perguntas permanecem.
E se você pudesse transformar uma única coisa hoje, na sua casa ou na sua vida, o que seria?
Como prometido, deixo aqui os perfis dessas duas mulheres que aparecem neste texto e que admiro por caminhos diferentes:
• Gigi Barreto @casavidacenario
• Arielle Martins @ariellemartiins


Lindo texto amiga. Amei a parte que fala sobre buscarmos nos conectar com a natureza e as vezes nos esquecemos que nós somos a natureza. Nada me tira da cabeça que mesmos sozinhos em nossos apartamentos podemos nos conectar com nós mesmos e com a natureza de maneira extremamente satisfatória, basta estar presente.